Uma nova disputa pelo espaço aéreo

Acompanhando o sucesso dos “Drones” também está uma crescente discussão sobre todas as consequências de se dividir o espaço aéreo com esses veículos.

DRONE1.1

Muito se fala atualmente sobre veículos aéreos não-tripulados, os popularmente conhecidos “drones”. Acompanhando o sucesso dessas modernas aeronaves também está uma crescente discussão sobre todas as consequências de se dividir o espaço aéreo com esses veículos. Os recorrentes sustos que os operadores vêm tomando — cada vez com mais frequência — como resultado de encontros em pleno voo com “drones”, leva –nos a fazer o seguinte questionamento: o que são e quais os reais riscos envolvidos na operação dos veículos aéreos não-tripulados para as demais atividades aeronáuticas?

Primeiramente, precisamos entender melhor dois conceitos: o que é “drone” e o que é “risco”.

Drone é uma expressão genérica que tem origem na semelhança do som produzido por essas aeronaves com o zumbido de um zangão, que em inglês chama-se drone. O termo técnico utilizado atualmente é UAV (Unmanned Aircraft Vehycle) ou Veículos Aéreos Não Tripulados (VANT). Os UAVs surgiram para o emprego militar e atualmente são utilizados nas mais diversas atividades civis, desde levantamento topográfico e vigilância até fotofilmagem. Podem ser autônomos (autopilotados) ou remotamente pilotados (RPA).

drone2

Crédito: DJI

Risco é a probabilidade de ocorrer ou a gravidade que um determinado perigo possa causar. E este é inerente à qualquer atividade, não podendo ser eliminado e sim controlado. 

Apresentado os conceitos, vamos agora situar essas aeronaves no contexto da aviação tripulada (aviões e helicópteros).

Os UAVs de emprego militar são aeronaves de porte médio a grande, possuindo peso e tamanho semelhantes à aeronaves pilotadas de tamanhos menores, como um helicóptero modelo Esquilo ou um avião Cessna TTx. Estes voam em grandes altitudes e, geralmente, em espaços aéreos segregados.

drone3

Os de uso civil, de porte pequeno, geralmente pesando menos de 30kg, são capazes de voar no mesmo espaço aéreo que voam os helicópteros — até mesmo pelo desconhecimento das leis por muitos dos que operam. Essas aeronaves são pilotadas remotamente (RPA), o que significa que uma pessoa os está operando em solo por meio de um controle remoto, que pode ser dos mais simples — em termos tecnológicos — até os mais complexos, como os pilotados de uma Estação de Controle (EC).

Não são apenas os UAVs que nos últimos anos vem recebendo grandes investimentos em desenvolvimento tecnológico. Existe também um outro tipo de aeronave “sem piloto”: os chamados Optionally Piloted Vehicle (OPV), um híbrido de aeronave convencional e um veículo aéreo não tripulado.

O conceito OPV ganhou impulso no século XXI com projetos como o sistema de entrega de carga Kaman K-Max não tripulado dos US Marine Corps que auxiliaram as tropas norte americanas no Afeganistão com a entrega de mais de 2000 toneladas de suprimentos. O K-Max é um helicóptero com um único assento, de carga por içamento e feito em versões tripuladas e não tripuladas.

Imagine que você está voando em uma REH (rota especial de helicópteros), a 500 pés, e de repente avista uma aeronave remotamente pilotada perto de se chocar com seu rotor de cauda; ou ainda, você está em uma aproximação para pouso numa fazenda e o agrimensor naquele exato momento utiliza um drone de pequeno porte para mapear a área e acaba voando de encontro à sua aeronave. É de apertar o coração, não é? De uma hora para outra, pássaros e fios passam a não ser mais as suas únicas preocupações ao olhar para fora.

Sim, é um novo perigo e risco envolvido na atividade aérea tripulada, porém não devemos considerar como o fim dos tempos ou que devemos agora lutar com todas as forças para impedir a prática dessa atividade aérea. A utilização dessas aeronaves tem uma grandiosa contribuição positiva, ajudando a salvar vidas, reduzindo custos operacionais e, acredite, evitando expor pilotos em situações de alto risco, como ocorreu após o terremoto em Fukishima, caso no qual UAVs foram utilizados para avaliar os danos causados em um reator nuclear. Vale realçar aqui que, durante o desastre de Chernobyl, na cidade de Pripyat, na Ucrânia, os pilotos de helicóptero não tiveram a mesma sorte, pois muitos dos que sobrevoaram a usina destruída pelo incêndio vieram a contrair câncer e faleceram tempos depois.

drone4

Devemos portanto, atuar para mitigar os riscos e ordenar a utilização dessas aeronaves de modo que tanto aeronaves tripuladas quanto não-tripuladas operem de forma segura em espaços aéreos comuns.

Regulamentação

O DECEA, no final de 2015, observando a crescente demanda por essa atividade, publicou a ICA 100-40, que trata exclusivamente do acesso ao espaço aéreo pelos Sistemas de Aeronaves Remotamente Pilotadas (RPAS). Nesta Instrução, o DECEA delimita o espaço aéreo e deixa bem definidas as regras para a utilização desses equipamentos.

A utilização do espaço aéreo por RPA somente será autorizada mediante a acomodação desta tecnologia, por meio da criação de um Espaço Aéreo Condicionado, com coordenadas e volume definidos, devidamente publicado em NOTAM.

O DECEA classifica as aeronaves não tripuladas em três categorias:

drone5

A operação de voo de RPA Cat 1 e Cat 2, em área não-segregada, sem a necessidade de publicação em NOTAM, poderá ser autorizada, se satisfeitas certas condições.

drone6

Vemos portanto, que o Comando da Aeronáutica já vem acompanhando e atuando para mitigar os riscos dessa atividade, não expondo a aviação pilotada. Cabe agora à ANAC fazer o seu papel e também regular sobre a formação e licença desses pilotos remotos.

Circular 328-AN/190

[…] será uma tarefa de longo prazo com muitas partes interessadas (stakeholders), adicionando seus conhecimentos sobre diversos temas como: qualificação médica e licenciamento dos tripulantes de VANT, tecnologias para sistemas dedicados a detectar e evitar, espectro de frequências (incluindo sua proteção contra interferência ilegal ou não intencional) separação padrão de outras aeronaves e desenvolvimento de um robusto quadro regulatório. (ICAO, 2011)

E nós, pilotos de helicóptero, devemos aumentar o nível de atenção para essas aeronaves. Durante nossos voos, devemos sempre estar atentos ao ambiente pelo qual navegamos, assim como, antes de decolarmos, devemos consultar informações que constam em NOTAMs ou conversar com outros pilotos que tenham costume de voar em determinadas regiões.

Cidades como Rio de Janeiro e São Paulo atualmente possuem muitos equipamentos de pequeno porte — com menos de 2kg — voando em seus espaços aéreos de forma recreativa. Isto definitivamente exige uma maior atenção! Cidades do interior, com forte atividade agropecuária, também devem ser sobrevoadas com enorme atenção, pois nessas regiões a utilização de UAVs de forma profissional — para apoio ao agronegócio, por exemplo —é crescente e considerável.

Gerenciamento da Segurança Operacional

Desde 2006, a aviação adotou o Safety Management System (SMS), denominado no Brasil pela ANAC como Sistema de Gerenciamento da Segurança Operacional.

Neste gerenciamento, utilizam-se ferramentas e métodos tais quais:

  • Identificação dos perigos;
  • Aquisição de dados e informações;
  • Gerenciamento dos riscos;
  • Medição de desempenho; e
  • Garantia da qualidade.

Assim sendo, os operadores de aeronaves — no nosso caso, operadores de helicópteros — devem estabelecer um sistema de gerenciamento em suas operações que levem em consideração as possíveis ameaças envolvidas com aeronaves não tripuladas, identificando-as como um perigo e coletando dados e informações à respeito da operação desses veículos nos mesmos espaços aéreos utilizados pela sua aeronave.

É comum o avistamento de aeronaves remotamente pilotadas em sua área de operação? Houve relatos de pilotos da empresa ou que voem na mesma região? Com essas e outras informações, faça um banco de dados e analise o que for coletado, estabelecendo ações que mitiguem os riscos envolvidos.

A aviação é uma atividade de altíssimo risco, mas, ao mesmo tempo, de avançada capacidade técnica e tecnológica, o que permite que os riscos sejam mitigados com inteligência, alcançando-se níveis aceitáveis.

Um dos fundamentos da prevenção de acidentes aeronáuticos diz que “a prevenção de acidentes, por sua natureza, não produz os efeitos desejados senão sob a forma de mobilização geral. Para alcançar os seus objetivos, todos, sem distinção, têm que se integrar no esforço global, com a consciência de que a segurança deve ser algo inerente de todas as tarefas desenvolvidas em aviação. Entretanto, dizer que a ‘segurança é responsabilidade de todos’ não é suficiente: é importante que cada um saiba exatamente a sua responsabilidade para com a segurança”.

Mantenha a sua consciência situacional em alerta e voe seguro!

 

COMENTÁRIOS

WORDPRESS: 2
  • avatar
    Luis AMartins 11 meses

    Excelente artigo. Compartilhando!

  • avatar
    Maria Lucia 11 meses

    Excelente artigo! De grande importância para a navegação aérea.

  • DISQUS: 0